Início Camaçari Médica e Ex-vereadora Drª Eugênia: Esqueci do sucesso

Médica e Ex-vereadora Drª Eugênia: Esqueci do sucesso

Por Folha de Camaçari

Após inúmeras tentativas de chamar a médica Lúcia Eugênia Borges da Silva, a conhecida vereadora Drª Eugênia, 58 anos, no portão da casa, resolvi adentrar para verificar se havia alguém para atender.

Sentada em frente à TV encontrei uma senhora de cabelos grisalhos, muletas ao canto e as pernas apoiadas no sofá.

– Posso conversar com a senhora?
Ela respondeu sinalizando positivamente com a cabeça.
De início estranheza, depois timidez seguida de demonstração de alegria. Estou feliz que você veio falar comigo, mas não gostaria de conversar sobre política.
Concordei imediatamente, embora soubesse que os papéis de médica, mulher, mãe e militante social se entrelaçavam à figura política . Mais adiante ela mesmo diria: não tenho divisão do eu.

Queria mesmo era saber da história de vida daquela pessoa que estava bem ali na minha frente, uma distinta figura pública e que hoje acomodava-se aquele lúgrube ambiente. Queria mesmo era tentar compreender como acontecem as adversidades da vida e ouvir dela própria, Drª Eugênia, a narrativa da trajetória e das dificuldades nas quais está imersa.
Com glaucoma e insuficiência renal crônica, sem conforto algum, mora de aluguel em uma modesta casa quase sem móveis, sem geladeira nem fogão. Um lugar escuro, pouco ventilado e precário.

Ao som da forte chuva que caía, Dra. Eugênia, começou a contar sobre o passado. Eu adoro a chuva, lembra a época de criança e dos tempos que brincava com meus filhos.
Gostaria de voltar a trabalhar
Médica, primeira mulher a assumir a vereança pelo Partido dos Trabalhadores (PT), desde jovem, Dra. Eugênia participou ativamente de movimentos em prol da saúde e dos servidores públicos.

Convocada a participar de passeatas e ações de protesto, um dia foi surpreendida com a pergunta de um policial durante uma manifestação na rotatória do Pólo Petroquímico: Até a senhora vem pra cá fazer este tipo de movimento?. Ela não titubeou e respondeu: eu peço por escola para o filho do soldado. Além da escola, peço também melhores condições de trabalho para os policiais.

Vive com dois netos e uma filha de 22 anos desempregada. Diabética desde os 35 anos, hoje a Drª está afastada das atividades laborais e políticas por motivo de doença.
O auxílio que recebe do governo não é suficiente para suprir as necessidades da família e o tratamento de saúde. Com problemas para retirar o valor do benefício,vive com a colaboração de conhecidos inclusive para prover a própria alimentação e despesas do dia-a-dia.

Falta o básico. Falta tudo.

Para ela, a felicidade tem três Ss: Sabedoria, Saúde e Sucesso. Sem mencionar as questões do bem estar, observa: esqueci do sucesso.
Pensei em voz alta que além dos Ss faltava o E da Espiritualidade.
Sem clinicar há mais de três anos e mesmo com toda dificuldade física, tem vontade de retomar as atividades. Eu gostaria de voltar a trabalhar, declara.

A médica contou sobre os projetos que participou e do sonho de vê-los reanimados: a Creche Curumim localizada na comunidade de Parafuso e a Fundação Humanitária de Camaçari no Phoc II. A creche foi desativada por falta de voluntários e a Fundação teve a sede ocupada por um dos beneficiados pela instituição.

A vida política
Quando se elegeu pela primeira vez em 1988 foi uma surpresa. Ninguém esperava que eu me elegesse. Eu não tinha um tostão, afirmou. Segundo a ex-vereadora, é necessário casar a fé com a obra, e por isso, viu na carreira política a possibilidade de colocar em prática tudo o que defendia nos tempos de militância.
A médica acredita que em quatro anos não é possível consolidar os projetos. Por isto, tentou novamente a reeleição. No ano 2000, elegeu-se novamente.

Durante os mandatos a prioridade foi defender politicamente a saúde. O projeto de Diagnóstico e Tratamento dos Falcêmicos, aprovado e sancionado durante a gestão de Hélder Almeida, deu origem a lei municipal 579/02 que acabou instituindo o Programa Municipal de Atenção Integral aos Portadores de Anemia Falciforme.
Em sua carreira política, ao deparar-se com movimentos populares sempre salientava que: sem ordenamento não é possível ir adiante. Uma sociedade só se constitui com organização popular e partidos fortes.
A família

Dra. Eugênia é mãe de quatro filhos: Moisés (27), Nilton (23), Larissa (22) e Ednalva, falecida em 2012 aos 35 anos. Avó de sete netos, afirma: Minha atenção maior hoje é para os netos. O filho Moisés mora em Salvador e Nilton reside em Camaçari.
A filha Ednalva que tinha problemas de hipertensão, diabetes e obesidade mórbida, apesar dos tratamentos, não resistiu e veio a óbito em uma das internações no Hospital Geral de Camaçari (HGC). Eu chamava Ednalva de Rizalva. Sabe por que? Porque ela tinha um sorriso lindo, contou Lúcia Eugênia.

Mas o sorriso de Ednalva ficou triste. A ex-vereadora atribui a piora do estado de saúde da filha ao rapto de uma das suas netas.

De acordo com os relatos, uma senhora de prenome Cícera, cuidava da filha de Ednalva – Íris Regina, enquanto a mãe trabalhava como cobradora de ônibus. Drª Eugênia não sabe precisar o tempo em que esta moça cuidou da sua neta, mas conta que chegou a ser procurada por ela, que lhe pediu autorização para ficar com a menina. Com a solicitação negada, Cícera mudou-se, levando a menina com ela. Daí, até a morte de Rizalva, foram dois anos de muita procura e sofrimento. Soubemos que estava em Pernambuco, mas não a encontramos mais.

Estes são os dois grandes motivos de tristeza para a família: o sumiço da neta, até hoje não solucionado, e também a morte de Ednalva. Depois da perda da filha, os dois netos mais velhos, filhos da falecida, ficaram com a avó. Os outros dois mais novos ficaram com o pai.
Hoje tentando driblar as dificuldades de mobilidade e financeiras para cuidar dos netos, não consegue melhorar a própria saúde.

Drª Eugênia já não tem mais a mesma vitalidade da jovem de 24 anos, que recém formada pela Universidade Federal da Bahia (Ufba), iniciava a sua luta pela saúde.

Numa vida de esperança, deposita no próprio futuro e na colaboração dos amigos a sua única possibilidade de voltar a sorrir.

Ao despedir-se, ela agradece e afirma: eu concordo com você quando diz que falta a espiritualidade nos três Ss. Anote aí, por favor.