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O mistério do peixe-leão: entenda os riscos do animal que pode ter chegado em Abrolhos

Vídeo com suposto flagra provocou polêmica entre pesquisadores e órgãos ambientais

Era um peixe bonito. No meio do mar da Ilha de Santa Bárbara, a maior do Arquipélago dos Abrolhos, no Sul da Bahia, o bicho nadava de um lado para o outro, reluzindo em tons fluorescentes. Chamou atenção de um turista, que fazia mergulho livre – em apneia, sem cilindro de oxigênio. O cidadão filmou e, sem saber, pode ter gravado a primeira evidência da chegada de um dos maiores perigos ao ecossistema marinho do estado (e do país).

O vídeo, gravado no dia 4 deste mês, chegou ao Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) no dia seguinte e circulou entre especialistas da área. A suspeita é de que seria um peixe-leão: um animalzinho que pode até ter beleza, mas tem um potencial de destruição ainda maior. Se tornou espécie invasora na Flórida, atacou a pesca de cerca de 20 ilhas do Caribe e, entre 2014 e 2016, dois exemplares já apareceram em Arraial do Cabo (RJ).

A situação foi considerada tão alarmante que o ICMBio chegou a emitir um alerta após ter recebido o registro, entregue à equipe do Parque Nacional Marinho dos Abrolhos. Pelo menos 20 especialistas, pesquisadores e profissionais de turismo foram mobilizados para tentar localizar o peixe novamente. E, desde então, a procura ao animal continua diariamente até hoje.

Só que, desde o dia 4, ninguém nunca mais voltou a vê-lo. Existe uma forte suspeita de que a gravação tenha sido feita a partir de um peixe de brinquedo, desses que servem para ornamentar aquários. Mesmo assim, o ICMBio mantém o alerta. Para o chefe do Parque, Fernando Repinaldo Filho, a ameaça é real – seja o vídeo falso ou não.

“O alerta é real e é importante em Abrolhos, ou em qualquer lugar do Brasil, que as pessoas tenham cuidado de, caso avistar esse animal, avisar aos órgãos de análise sobre o problema”, diz ele, que reforça o quanto o vídeo trouxe “prejuízos” ao órgão, caso seja uma mentira – no caso, uma “fake news” (notícia falsa).

Quando teria aparecido
O visitante que teria flagrado o peixe-leão nem mesmo é baiano, embora o diretor da Sanuk Turismo, Maurício Moreira, não soubesse dizer de qual estado era. Maurício era uma das pessoas responsáveis pelo barco que levou o turista para o mergulho. Embora o visitante soubesse mergulhar com cilindro, naquele momento específico, ele mergulhava por apneia. Estava numa parte mais rasa.

Quando voltou, mostrou o vídeo numa televisão no barco e o próprio Maurício foi quem fez uma filmagem da filmagem: usando o celular, captou a tela da televisão. “Ele filmou porque achou que era um peixe diferente. Disse que nem sabia o que era peixe-leão. E, em um ano e meio, já achei três peixes que ninguém nunca viu na região. Então, pode estar acontecendo”, pondera.

O rapaz teria filmado quatro vídeos e mostrado apenas dois, enquanto estava no barco. Nenhum ficou com uma boa resolução porque a câmera estava embaçada no momento da gravação. Depois que a empresa entregou o vídeo à administração do Parque, Maurício entrou em contato com o turista.

Ele repetiu que filmou por ter achado diferente e disse que, como a gravação ficou ruim, apagou os vídeos originais. Para Maurício, a ocorrência pode ser real. Se apareceu em Arraial Cabo, acredita, não é impossível que o peixe-leão tenha dado as caras por aqui.

“A única apreensão que tenho é: quando podemos começar a combater? Porque, quanto mais cedo combater, mais vai ser efetivo, para não acontecer como nos lugares onde está dificílimo acabar”, opina.

Fake news
Pesquisador da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), o coordenador do projeto Conservação Recifal, Pedro Cispresso Pereira é um dos especialistas que mais defende a possibilidade de que o vídeo seja uma mentira. De que o peixe-leão na Bahia seja apenas mais uma fake news dos últimos tempos. Doutor em Biologia Marinha, ele coordena um projeto de pesquisa que estuda a invasão do peixe-leão em Fernando de Noronha.

Para Pedro, o peixe que aparece nas imagens parece ser de plástico. Não é difícil encontrar peixes de plástico que simulem o peixe-leão. Esses ornamentais podem ser comprados em sites estrangeiros – chineses, principalmente – por preços que variam entre R$ 6 e R$ 50. Em Salvador, o CORREIO entrou em contato com seis lojas de aquicultura e apenas uma vendia o peixe de plástico, por R$ 41,90.

Ele diz ter visto as imagens dezenas de vezes, com o objetivo de analisá-las. Pelo menos outros 15 pesquisadores que estudam biologia marinha no Brasil também se movimentaram; até mesmo um pesquisador brasileiro que mora na Califórnia entrou nos estudos. Para eles, o peixe tem uma coloração diferente e um movimento diferente.

“Posso afirmar, com 99% de certeza, que é um caso falso. Pode ter sido, inclusive, outra pessoa que colocou lá e o turista filmou achando que era um peixe real, mas é difícil saber o que se passa na cabeça das pessoas”, pondera Pedro.

Mesmo assim, ele ressalta a preocupação da comunidade científica com a conservação nos ecossistemas locais. Natural de locais como a Austrália, Indonésia e Ilhas do Pacífico, o peixe-leão é uma espécie predadora no Oceano Altântico. Pode causar inúmeros prejuízos econômicos para os pescadores porque, onde tem peixe leão, a população de peixes diminui.

Eles se alimentam de larvas de peixes, lagostas, camarões… Assim, comendo os filhotes, impedem que as populações das outras espécies cresçam e elas acabam diminuindo. “Todos os peixes-leão, bem como os membros da família Scorpaenidae, na qual esta espécie está incluída, são carnívoros por excelência e costumam capturar presas proporcionais ao seu tamanho. Apresentam um comportamento territorialista para com outros peixes”, diz o professor de Ciências Biológicas da Unime Lauro de Freitas Alberto Lima.

Afetam diretamente, portanto, a pesca. Os riscos para a biodiversidade no local onde são invasores é enorme, segundo o pesquisador. “O peixe-leão é a pior história de bioinvasão da humanidade no mar. Ele leva à perda de abundância de uma espécie. A espécie não vai deixar de ocorrer, não vai ser extinta, mas vai diminuir a ocorrência e isso causa desequilíbrio ecológico. É um peixe que destruiu a pesca em 20 países no Caribe”, completa Pedro Cispresso Pereira. No Brasil, porém, onde o peixe-leão ainda não ocorre oficialmente, a pior invasão no mar ainda é a do coral-sol.

O peixe-leão é peçonhento e pode causar acidentes a turistas e pescadores (Foto: Wikicommons/Reprodução)

Onde está o turista
Por isso mesmo, é tão importante continuar as buscas. Não só pelo peixe, mas pelo visitante, que, até agora, não foi localizado pelo ICMBio. De acordo com Fernando Repinaldo, chefe do Parque, o órgão já conseguiu falar com boa parte dos envolvidos, mas não com o que gravou o vídeo.

Se for uma mentira, os envolvidos podem ser responsabilizados desde administrativamente (a empresa poderia ser advertida pelo Parque, por exemplo) até judicialmente. Nesse último caso, o autor seria enquadrado pelo mesmo artigo do Código Penal que fala sobre quem passa trotes, o 340. A pena poderia ser de um a seis meses ou multa.

“Como o visitante que gravou não atendeu telefonema da equipe, a gente vai buscar as informações por outro meio, como notificações formais até o endereço dele. Os que já conseguimos falar dizem que não viram brincadeira (na situação), não fizeram nenhuma brincadeira e que não viram nenhum brinquedo na área”.

As notificações formais foram enviadas ao longo da semana e, após as pessoas receberem, tem um prazo mínimo de cinco dias úteis para responder. A partir desses retornos, o ICMBio deve avaliar quais medidas tomar.

Por enquanto, continuam valendo as buscas. A teoria da brincadeira é reforçada pelo fato de que, desde então, o peixe não voltou a ser visto. Isso acontece num contexto em que as equipes do órgão estão no Arquipélago todos os dias e que há visitantes quase diariamente no local. “Claro que o peixe migra, se movimenta, mas a expectativa é de que fosse reavistado no local. Por isso, é de se estranhar”.

Mesmo assim, ele reforça que, até o momento, nem mesmo os especialistas mais renomados da área dão 100% de certeza de que se trata de um peixe de brinquedo. A própria forma como o animal se movimenta no vídeo é um dos motivos de desconfiança, segundo Fernando. Seria uma das razões pelas quais ninguém atesta a inveracidade.

Um brinquedo, quando colocado de forma simples, teria um comportamento previsível – levantar ou abaixar de um lado para o outro, por exemplo (como acontece com a maioria dos vídeos que mostram o peixe de brinquedo em sites como o Youtube). No entanto, ele acredita que, se o objetivo era enganar, o responsável pode “ter bolado coisas”. Por má fé mesmo, diz.

“Acho que ninguém tem ganho inventando uma brincadeira dessa. É muito mais prejuízo para todos, porque não é uma publicidade positiva e não é algo que ninguém ganharia um real com isso. Então, não haveria nenhum motivo”.

Que peixe é esse
Caso seja verdade, o peixe-leão pode ter chegado a Abrolhos de duas formas: numa soltura pontual ou numa migração. No caso da soltura, poderia ter acontecido se uma pessoa que cria o peixe em aquário de repente não gostou e decidiu jogar no mar. O peixe-leão pode ser criado em aquário, inclusive no Brasil. Na internet, dá para encontrar por até R$ 600. Em seis lojas contatadas em Salvador, nenhuma tinha o animal. O que não dá é para lançar no mar.

A outra hipótese é de que eles teriam vindo do Caribe para o Brasil, de recifes profundos para os mais rasos. Em 2015, pesquisadores analisaram o primeiro peixe-leão localizado em Arraial do Cabo e identificaram ligação genética com as populações do animal que vivem no Caribe. Ou seja, o animal teria migrado para cá.

O que acontece é que a região do Arraial do Cabo é uma área de ressurgência (quando correntes marítimas mais frias e profundas vão para a superfície), como explica o pesquisador Pedro Cispresso Pereira. O peixe-leão pode ficar até 200 metros de profundidade. Assim, ele já poderia estar nos recifes profundos antes de aparecer no Arraial do Cabo.

“Essa hipótese seria de grande ameaça, porque ele já pode estar habitando os recifes profundos em toda a costa do Brasil, mas só aflorou essa ocorrência em alguns pontos. Por isso acreditamos que Fernando de Noronha pode ser um local pioneiro na invasão”, adianta, citando os estudos de correntes oceânicas que atuam no arquipélago pernambucano.

O primeiro lugar onde houve invasão no Atlântico foi na Flórida (EUA), no início da década de 1990. Uma das hipóteses é de que o peixe teria sido solto de aquários mesmo e outra é que um furacão teria atingido uma loja de peixes de aquicultura, distribuindo todos os peixes ao mar.

O peixe-leão pode chegar até uns 40 cm de comprimento, mas tem um metabolismo muito alto: ou seja, ele come muito. Em aquários, é comum que comam os outros peixes menores. Têm hábitos noturnos e costumam ser solitários, mas, em áreas de ocorrência alta, podem viver em grupos.

Por aqui, não há nenhuma espécie que seja naturalmente predadora dele. Porém, peixes maiores e tubarões poderiam ser. “Só que ninguém aqui se alimenta dele porque ninguém o reconhece, ninguém identifica como presa”, explica Pedro.

Para completar, o peixe-leão é um peixe peçonhento, por ter um veneno (na verdade, a peçonha) nos espinhos que ficam nas barbatanas. Esse veneno tem ação local e pode causar dor, febre e náuseas. O próprio alerta do ICMBio adverte que o animal pode causar “acidentes graves” a turistas e pescadores que tentarem manuseá-lo de forma inadequada. “Espécies marinhas variam muito quanto às suas substâncias zootoxicológicas. Contudo, ressalto que não representam perigo para banhistas e mergulhadores, desde que não tentem capturar o animal sem proteção, evitando acidentes. Quanto à vulnerabilidade, apenas se aplica às suas presas”, pondera o professor Alberto Lima, da Unime.

Uma das frentes utilizadas para combatê-lo é a remoção dos indivíduos e o estímulo para que seja transformado em alimento. Com o preparo adequado, é possível retirar os espinhos, limpar e fazer ceviches, peixe frito ou grelhado em churrasqueira. No México, existe até livro de receitas de peixe-leão.

“Mas nunca dá para eliminar o peixe-leão. O grande objetivo não é mais acabar, mas controlar, pois, ao longo do período reprodutivo de um deles, nascem mais de um milhão. Esse é o grande problema: tem locais que o povo vai, faz a retirada e, quando volta, já não tem nenhum”, lembra Pedro. Uma fêmea de peixe-leão pode liberar até dois milhões de óvulos por ano.