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O fim de uma história Insinuante: dívida empurra ex gigante do varejo no abismo

Rede criada no interior da Bahia enfrenta processo de reestruturação na justiça junto com antigo rival


Por Correio da Bahia

Na Baixa do Sapateiro, esquina com o Largo do Pelourinho, a primeira Insinuante da cidade, fundada no início da década de 80, já não existe mais. O laranja perdeu para o vermelho, o letreiro é apenas uma pequena imagem na lateral da loja, alguns produtos estão em falta no estoque. Assim aconteceu em todas as sedes da ex-maior rede de eletrodomésticos do Nordeste até que, em 2016, ela sumiu.

Agora, a antiga gigante tem a história espremida, em Salvador, nas únicas 24 lojas restantes da Ricardo Eletro, com a qual foi fundida em março de 2010. Mais uma baixa no setor de eletrodomésticos, um dos setores em ascensão até 2014 e em crise desde então.

Os funcionários restantes também sentem-se espremidos: hoje, na capital baiana, são menos de mil; até 2010, somente na capital baiana, o estimado era o dobro. Naquele ano, eram 260 lojas da Insinuante espalhadas pelo Brasil. Quatro anos depois, quando a Ricardo Eletro e a Insinuante já atuavam em conjunto, a quantidade da Insinuante havia caído para 231, com 37 apenas em Salvador, e os letreiros da Insinuante começavam a ser juntados com os da Ricardo Eletro. Mas nada que assustasse os vendedores.

“Agora é diferente, né? Nem existe mais nada, quem garante alguma coisa?”, desabafa um dos varejistas, pouco depois da abertura da loja do Centro.

No final de agosto, sexta-feira (24), a história da Insinuante e seus antigos funcionários, em parte incorporados à Ricardo Eletro, parece ter sido novamente reconfigurada. A Máquina de Vendas, fusão do negócio com a empresa mineira e a outras três lojas, iniciou processo de recuperação extrajudicial para renegociar a dívida de R$ 3 bilhões – metade com fornecedores. O dono da antiga Insinuante, Luiz Carlos Batista, ficará com apenas 12% do capital, enquanto a gestora Starboard, companhia que compra participação em empresas, terá 72,5% de todo o lucro futuro, segundo acordo confirmado pela Ricardo Eletro ao CORREIO.

A ação iniciada pela Máquina de Vendas, explica o advogado Diego Montenegro, é um mecanismo utilizado justamente para as empresas negociarem sem restrições legais os seus débitos. Como uma primeira tentativa antes de arriscar na Recuperação Judicial, quando as corporações são praticamente reestruturadas, ou na Falência.

“Basicamente, a empresa devedora e os credores estabelecem livremente um plano e, se aceito por pelos menos 3/5 do grupo, o acordo pode ser protocolado”, afirma Montenegro.

Antes, seis credores já haviam pedido na Justiça falência contra a Ricardo Eletro. O pedido não ter sido aceito é um alívio para os empregados e os representantes sindicais em Salvador. Afinal, decretar falência seria o início da espera por mais demissões em massa. E, quem sabe, o início de problemas com pagamentos de direitos trabalhistas até então inexistentes, segundo o diretor de formação sindical do Sindicato dos Comerciários de Salvador, Walter Cândido.

O grande problema tem sido outro: o pagamento de mais de mil funcionários da Insinuante e da Ricardo Eletro que dizem não ter recebido por alimentação, de 2010 a 2013. No dia 22 de agosto, a 28ª Vara do Trabalho de Salvador determinou o pagamento revisto e reajustado aos colaboradores e ex-colaboradores. Os valores a serem pagos variam por dia trabalhado, mas o pagamento diário é de, em média, R$ 8,40.

“Precisamos nos reunir para fazer os cálculos. Não temos como confirmar nada”, diz Walter.

Outra briga também chega aos tribunais. Do ano em que foi extinta, em 2016, até o momento, a Insinuante foi alvo de 331 processos no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), na Bahia. Segundo cálculo do TRT solicitado pela reportagem, a empresa é alvo de 524 ações trabalhistas – seja por pagamento de algum direito trabalhista até algum pedido por dano moral. Em outros estados, como no Maranhão, Pernambuco e no Ceará, onde a Insinuante funcionou, foram 55, 96 e 25 ações abertas, respectivamente. Extinta ou não, a Máquina de Vendas precisará responder por todas as 700 queixas.

Casamento falido
A Insinuante chega a Salvador na década de 80, já sob comando do filho do idealizador de todo negócio Antenor Batista. O então jovem Luiz Carlos Batista, na capital para estudar Administração abre a filial da Insinuante, criada em 1959, em Vitória da Conquista, justamente na Baixa do Sapateiro, à época um dos principais polos comerciais de Salvador. Foi questão de tempo para que os soteropolitanos, principalmente das classes mais baixas, fossem à Insinuante tão logo precisavam de algum eletrodoméstico.

Primeira loja da rede aberta em 1980 na Baixa do Sapateiro (Foto: Marina Silva/CORREIO)

Os preços baixos e a política de negócios com os clientes projetam a marca rapidamente para outras cidades e estados. Reinou soberana por anos e, até 2004, precisou enfrentar apenas a concorrência da paraibana Lojas Maia, adquirida pela Magazine Luiza em 2010. Das 22 edições do prêmio Top of Mind, a Insinuante ganhou 18 vezes consecutivas, de 1998 a 2015, no segmento Loja de Eletrônicos e Eletrodomésticos. A partir de então, a Ricardo Eletro assumiu o posto.

É em 2004 que o cenário começa a mudar para a marca conquistense. A Ricardo Eletro, do mineiro Ricardo Nunes, chega para fazer frente ao negócio local. E começa com uma política agressiva de propaganda e preço. A Insinuante apela para a afetividade do baiano, convoca a memória dos anos passados; a então novata parte para o negócio direto com o consumidor.

Tamanha era a concorrência que, em março de 2010, uma notícia surpreende a todos: a partir dali, Insinuante e Ricardo Eletro estavam juntas na fusão chamada Máquina de Vendas. A expectativa dos donos era, até 2014, dobrar o faturamento de R$ 5,2 bilhões e o número de lojas – 528 por 200 cidades. Não aconteceu.

“A realidade é: os dois [Luiz e Ricardo] entraram em contato com fabricantes e economistas e viram que o futuro não parecia promissor. Seria melhor caminhar juntos, eles concluíram”, falou uma fonte próxima de Luiz, sob anonimato.

Porta da mega loja na Paralela, em 2011, após fusão (Foto: Antonio Queiroz/ARQUIVO CORREIO)

O setor de atuação começa a decair, as dívidas multiplicam-se. A Insinuante parece começar a desaparecer. Até as principais lojas, da Estrada do Coco e a Mega Store da Paralela, são fechadas.

“É como se a Insinuante tivesse começado a deixar de existir sem que a gente percebesse. Quando olhei, já não vi mais Insinuante”, comenta a professora de História Marlene Câncio, 76, consumidora da loja desde os primeiros anos do negócio.

Os primeiros sinais do desaparecimento são os próprios fechamentos de lojas da Insinuante. Os slogans, antigos rivais, são colocados juntos numa mesma loja; os funcionários dividem-se entre a farda da Insinuante e da Ricardo Eletro. Em fevereiro de 2016, a marca baiana perde a briga invisível e deixa de existir. O advogado Diego Montenegro explica que a decisão de extinguir uma marca, depois da fusão, é extrajudicial e cabe aos envolvidos.

A dúvida é: por que Luiz Carlos Batista aceitou abrir mão do império familiar? As opiniões divergem e ele próprio não respondeu às ligações da reportagem durante a semana. Uma fonte próxima a Luiz Carlos, sob anonimato, afirmou que não havia outra possibilidade:

“Deixar as duas seria cair do penhasco. A Ricardo tinha mais projeção nacional, era mais conhecida. Uma decisão totalmente lógica e Luiz, inteligente que é, aceitou porque era o que restava”.

Fechando as portas
Quando a marca da Insinuante é extinta, o setor eletrodoméstico também passa por uma crise expressiva na Bahia. Um ano antes do antigo império conquistense ter o nome praticamente eliminado das ruas, o segmento já amargava uma queda de quase 15% (14,5%); no ano de 2016, o decréscimo chegou aos 18%, segundo a Superintendência de Estudos Econômicos (SEI). Queda dupla para a economia baiana e associada a fatores como o desemprego e a elevada taxa de juros por especialistas como Gustavo Pessoti, diretor de indicadores e estatísticas da SEI e professor de Economia.

O economista explica:

“O cenário começou a ficar ruim em 2015, com a instabilidade generalizada. O crédito escasseou, a renda diminuiu, a taxa de juros subiu”.

Sem dinheiro, evidentemente, as famílias deixaram de comprar tantos eletrodomésticos quanto antes. E, o setor que chegava a crescer 40% mensalmente, também de acordo com a superintendência, despencou. Números da Junta Comercial do Estado (Juceb) solicitados pelo CORREIO também ajudam a ilustrar o clima de queda.

Em 2010, um dos momentos de maior crescimento na venda de eletrodomésticos, foram abertas 222 empresas do setor e somente sete fecharam as portas. De 2017 ao dia 31 de julho, já no aprofundamento da crise, das 123 lojas abertas, 44 não resistiram ao mercado (quase 36% das novatas). Em 2017, até ocorre uma pequena retomada de 3,4%, novamente de acordo com a SEI, mas não o suficiente para reerguer o segmento. Para a pasta, o comportamento está ligado às reduções da inflação e da taxa de juros.

O próprio fechamento da Insinuante repercutiu na conjuntura baiana, acredita Luiz José Pimenta, doutor em desenvolvimento regional e urbano e conselheiro do Conselho Regional de Economia da Bahia (Corecon). Ele justifica:

“Só quantidade de pessoas que ela empregava e deixou, em tese, de empregar, já faz a diferença. Essas pessoas deixaram de consumir e isso é significativo. Temos também os impostos que o governo deixou de receber”.

Há também outra justificativa levantada por economistas. A internet parece ter se tornado uma atrativa para o fechamento de lojas do setor. É o que mostra uma pesquisa de 2017, do Conselho Federal de Economia: a compra de geladeiras e fogões, por exemplo, foi realizada 43% das vezes por meio de sites.

“Teremos e temos esse consumo virtual. E, claro, com o telefone celular, isso fica até mais fácil. Além disso, todo brasileiro, hoje, tem um computador”, diz Gustavo.

Mas a perda maior, no caso da Insinuante, parece ser simbólica. É o que acreditam também os ex-clientes da marca. “Eu lembro de sempre olhar na Insinuante antes de decidir. A última coisa que comprei lá, há uns três anos, foi uma cama. Acho que custou R$ 500, nos outros lugares eram uns R$ 650, por aí”, lembra a vendedora Márcia Lima, 35. A substituição ou ocorre pela internet ou por passeios nas ruas. “Eu só decido pesquisando mesmo, indo nos lugares. Acho que deve ser de geração”, acredita a professora Marlene, 76.

A crise sem volta da Insinuante é também sempre ligada a outras perdas da economia baiana, como a Farmácia Sant’Ana, cuja última loja foi fechada em 2018. De frente para a primeira loja da rede em Salvador, uma senhora percebe a reportagem, olha para o slogan da loja e comenta: “Acabou mais uma, né? Crise braba, minha filha”. Os símbolos da Insinuante são apenas vestígios do passado. A Bahia já perdeu mais uma de suas forças.