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Ginecologista fala sobre uso e consequências da pílula do dia seguinte, distribuída no Carnaval

Por Aratu Online

Crédito da Foto: Ilustrativa/Pexels

Neste ano, uma das grandes novidades do Carnaval de Salvador foi a distribuição de pílulas do dia seguinte. Diferente dos preservativos masculinos, comumente entregues na folia, o referido remédio esteve disponível gratuitamente – em módulos de saúde – para as mulheres que informaram ter feito sexo desprotegido. De duas doses, a primeira deveria ser administrada no posto e na frente do profissional de saúde. Já a segunda, 12 horas após a primeira, não necessariamente na unidade.

A ação dividiu a opinião dos foliões e, ao final ta folia, 55 mulheres procuraram os postos para administração dos comprimidos, segundo informou a Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Mas o que vale ressaltar, segundo a ginecologista e obstetra Márcia Novaes, é que a pílula do dia seguinte é considerada uma contracepção de emergência. Assim, não deve ser usada como método contraceptivo de rotina. Além disso, apesar de poder evitar uma gravidez indesejada, o método não evita doenças sexualmente transmissíveis.

“Se usada rotineiramente, perde-se a eficácia e bagunça o ciclo menstrual. A mulher corre o risco, inclusive, de engravidar, pois o corpo cria uma tolerância à medicação e chegará o momento em que a ovulação* não será ‘segurada’”, explica a médica.

É bom lembrar, também, que apesar de bons resultados, há sempre exceções, mesmo com o uso de forma adequada. A enfermeira Lais Nery, 29, utilizou a pílula duas vezes, com o intervalo de mais de um ano, após a camisinha ter estourado – ainda assim, engravidou -.

“Minha filha está aqui com nove anos, para contar a história. Foi um susto, mas a melhor coisa que me aconteceu”, conta, aos risos, ao Aratu Online. Todavia, na época, a situação não foi “tão engraçada”. “Era muito novinha, tinha 19 anos… Depois disso, nunca mais tomei”, diz Laís.

Para tirar todas as dúvidas a respeito do medicamento, conversamos com a ginecologista e obstetra Márcia Novaes. Leia a seguir:

COMO FUNCIONA

A pílula do dia seguinte é composta por levonorgestrel, um tipo de progesterona (hormônio feminino) sintética, que existe nos contraceptivos normais em baixa dose, justamente para não sobrecarregar o organismo. Para ter o efeito de evitar a gestação, precisa ter 20 vezes mais que a quantidade habitual.

Ela age evitando a liberação do óvulo, alterando ou dificultando a fixação do embrião. Há, ainda, a possibilidade de modificar o muco cervical – secreção liberada pelo colo do útero e deixa o muco mais espesso, o que dificulta a penetração dos espermatozoides.

EFICÁCIA

A medicação pode ser encontrada em dose única ou duas doses, sem diferença na eficácia. O que pode não trazer o resultado esperado, contudo, é a demora para tomá-la. “O uso pode ser em até 72 horas após o ato sexual, mas o ideal é fazê-lo o quanto antes. De preferência, em até 24 horas, pois o percentual de eficiência diminui com o tempo”, diz Dra. Márcia.

Quem tem menstruação irregular deve ter cuidado redobrado, pois pode estar na iminência de uma ovulação e não conseguir essa modificação, mesmo com a pílula. A ginecologista alerta, ainda, às mulheres em uso de antibióticos ou medicações psicotrópicas, como anticonvulsivantes, que podem diminuir o efeito da progesterona. “Nesses casos, o indicado é usar um método de barreira, a exemplo dos preservativos (masculino e feminino) e o diafragma”, completa.

EFEITOS COLATERAIS

Em alta dose, a progesterona pode causar dor de cabeça e náuseas, porém o mais importante é a “bagunça” do ciclo menstrual. “Assim que menstruar, a mulher deve procurar um ginecologista e dar início à contracepção rotineira, por anticoncepcional ou injeção hormonal, por exemplo”, indica Dra. Márcia. A longo prazo, efeitos como ganho de peso, edemas e sangramentos irregulares também são perceptíveis.

*A ovulação é um processo natural para a mulher e acontece ao mesmo tempo que o período fértil, quando o corpo da mesma se prepara para conceber um bebê. Normalmente, o período fértil ocorre no meio do ciclo menstrual, quando também é liberada uma secreção vaginal mais transparente e elástica, conforme imagem abaixo.

Como saber se está ovulando | Arte: Iza Azevedo