Início Bahia “Eu tentei segurar, mas o mar levou o meu filho”, relembra mãe...

“Eu tentei segurar, mas o mar levou o meu filho”, relembra mãe de bebê morto em tragédia com lancha


Por: Diego Vieira e Brenda Ferreira | BNews

Nesta sexta-feira (24), dia em que a tragédia com a lancha Cavalo Martinho I, em Mar Grande, completa um ano, o BNews traz uma matéria especial sobre o caso. Em conversa com a reportagem, familiares das vítimas e sobreviventes relembraram os momentos de pânico durante o naufrágio e desabafaram sobre a espera de Justiça.

Assista ao relato de uma das sobreviventes e mãe de Davi Gabriel Monteiro Coutinho, de 6 meses, que também estava na embarcação e morreu após duas paradas cardiorrespiratória.

Ana Paula Monteiro, 29 anos – sobrevivente e mãe de Davi Coutinho

Difícil não lembrar da imagem de um socorrista do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) segurando um bebê em seus braços. Davi Gabriel Monteiro Coutinho, de 6 meses, estava na embarcação e morreu após duas paradas cardiorrespiratória.

Diagnosticado com uma micose, Davi estava acompanhado da mãe, Ana Paula Monteiro. Ao BNews, a confeiteira contou que aquele dia seria a última consulta médica do filho em Salvador. “Como eu tinha notado uma certa melhora eu resolvi levar ele no médico para suspender o tratamento. Naquele dia, eu estava indo lá no Martagão Gesteira para um dermatologista avaliar o meu pequeno”, disse. Além de Davi, ela estava acompanhada da mãe e da filha, de cinco anos, que conseguiram sobreviver.

Acostumada a fazer a travessia com frequência, ela conta que ao chegar no terminal marítimo, notou algo diferente. “Logo quando chegamos, eu percebi que a lancha estava muito lotada e a embarcação era muito pequena. Cheguei até a comentar com a minha mãe: ‘mãe está muito estranho, essa lancha tem muita gente’. Não tinha nem lugar para a gente sentar”, relatou. Emocionada, ela relembra o momento em que percebeu que algo de errado estava acontecendo.

“De repente escutamos um estalo, parecendo que alguma coisa estava quebrando. Foi aí que a lancha baixou. Depois olhei pra cima e vi as pessoas tentando se segurar de qualquer jeito para não cair. As pessoas caiam sobre as outras. Inclusive uma delas, caiu em cima do meu filho. Depois disso, a lancha virou de vez. Eu tentei segurar meu filho pela roupa dele, mas eu não consegui. O mar levou o meu filho”.

Em meio ao cenário trágico, Ana Paula conta que no momento só conseguia pensar nos filhos e em sua mãe. “Eu engolia muita água e ao mesmo tempo eu gritava, mas os gritos eram porque eu sabia que os meus filhos estavam ali, eu sabia que a minha mãe também estava ali. Quando eu consegui subir, eu vi a lancha virada, muitas pessoas em cima dos escombros, muita gente chorando, senhoras sem roupa, pessoas sangrando. Depois de alguns minutos, a minha mãe apareceu em um dos botes, mas os meus filhos, eu continuava sem vê-los”.

Ainda sem notícias dos filhos, a confeiteira recebeu os primeiros socorros e foi encaminhada para a UPA. Após receber o atendimento na unidade saúde, Ana Paula foi levada para a casa da avó. Foi lá que ela viu a última imagem do filho ainda com vida.

“Meu tio recebeu uma mensagem com a foto de minha filha, informando que tinham encontrado ela, mas o meu filho eu ainda continuava sem saber de nada. Quando cheguei na casa de minha avó, fiquei acompanhando pela TV. Quando eu vi a imagem do socorrista com um bebê, eu sabia que era meu filho, eu conheci pela cabecinha dele e o capote amarelo que estava usando”.

A dor e tristeza após confirmação da morte da Davi abriram um rápido espaço para a sensação de alívio no reencontro com a filha. “Quando eu vi a minha filha, eu a abracei e agradeci muito a Deus por trazê-la de volta, porque na minha cabeça os dois estavam mortos”, contou.

Um ano após o ocorrido, Ana Paula denuncia as condições das embarcações que fazem a travessia. “Nada mudou. Tudo continua do mesmo jeito. As lanchas continuam rodando com as irregularidades, os responsáveis continuam exercendo as suas funções. Enquanto eles destruíram a minha família, tiraram um pedaço do meu coração. Eu espero que as melhorias aconteçam para que outras famílias não sofram o que estamos sofrendo hoje”, disse a confeiteira, que depois da tragédia prefere evitar o contato com o mar.

“Não consigo nem olhar para o terminal marítimo. Às vezes, preciso ir lá embaixo, mas quando eu passo é com a cabeça virada. Eu não consigo encarar o mar”.