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Espanhol que assassinou esposa mata a advogada que o tinha defendido no caso

O corpo da mulher, com que ele tinha um relacionamento, foi achado na casa de José Javier Calvo.
Ela estava com ferimentos de arma branca. Ele se matou horas depois

Rebeca Santamalia com José Juan Salvador, em 2005, durante o julgamento pela morte da esposa dele, na Audiência de Teruel.
– ANTONIO GARC√ćA HERALDO DE ARAG√ďN

A advogada Rebeca Santamalia Cancer, de 47 anos, foi achada morta na cidade espanhola de Zaragoza, dentro da casa de José Javier Salvador Calvo, que estava em liberdade condicional desde 2017 após cumprir 14 anos de prisão por assassinar sua primeira mulher. Santamalia havia sido advogada dele e agora mantinha um relacionamento sentimental com esse homem de 50 anos, razão pela qual o crime é investigado, novamente, como violência de gênero. A Delegação do Governo espanhol na região de Aragão, da qual Zaragoza é a capital, confirmou os fatos, assim como o suicídio de Salvador Calvo. Santamalia era mãe de um filho de 14 anos, segundo seu entorno.

O cad√°ver da advogada foi localizado no n√ļmero 21 da rua Francisco de Pradilla, em Zaragoza, com ferimentos de arma branca. Na caixa de correio da casa figuram os nomes do suposto assassino e outros dois com o mesmo sobrenome, um deles o de sua irm√£ Ana.

O marido de Santamalia tinha denunciado seu desaparecimento nesta quinta-feira √† pol√≠cia de Zaragoza, porque se preocupava com sua demora em voltar para casa, segundo a Delega√ß√£o de Governo. Por esse motivo, segundo fontes da investiga√ß√£o, a pol√≠cia entrou em contato com a irm√£ de Rebeca, com quem ela dividia o escrit√≥rio, e esta revelou a rela√ß√£o sentimental de sua irm√£ com seu ex-cliente, al√©m do endere√ßo onde ele vivia, a apenas tr√™s minutos do escrit√≥rio. Como ningu√©m atendia o telefone ou a campainha, os policiais entraram em contato com Ana Salvador Cano, √ļnica irm√£ de Salvador Calvo, que dispunha de chaves do apartamento. Entraram √†s 04h20 (hora local) e encontraram a advogada morta numa grande po√ßa de sangue, acrescentam fontes da investiga√ß√£o.

Por outro lado, no come√ßo da madrugada de quinta-feira os agentes de um carro de patrulha da Pol√≠cia Nacional viram um homem caminhar por um viaduto dos arredores em atitude suspeita. Ele come√ßou a correr quando os agentes se dirigiram para ele, perderam-no de vista, e o homem se atirou no vazio. Tratava-se de Salvador Calvo. Levava uma grande quantia em dinheiro ‚ÄĒ mais de mil euros, cerca de 4.300 reais ‚ÄĒ e n√£o portava documentos, mas foi identificado pelas impress√Ķes digitais. Foi ent√£o que a pol√≠cia cruzou as duas hist√≥rias.

Em 22 de maio de 2003, Salvador Calvo matou sua esposa, Patricia Maurel Conte, de 29 anos, com 11 tiros com uma escopeta de ca√ßa, abandonando em seguida o cad√°ver numa lavoura pr√≥xima de seu povoado, Puebla de H√≠jar, tamb√©m em Arag√£o. A jovem era candidata do Partido Popular √† prefeitura desse munic√≠pio, e foi assassinada poucos dias antes das elei√ß√Ķes municipais. Salvador Calvo, depois de apertar o gatilho, viajou de carro os 180 quil√īmetros que separam seu povoado da cidade de Teruel. A m√£e da v√≠tima o havia denunciado naquela mesma noite por amea√ßar sua filha de morte. O assassino acabou confessando o crime √† sua irm√£, entregou-se e foi condenado a 18 anos de pris√£o.

Come√ßou a cumprir pena em maio de 2003 e deveria ficar preso at√© 2021, segundo fontes penitenci√°rias. Mas em dezembro de 2011 um juiz de vigil√Ęncia penitenci√°ria lhe concedeu o regime de semiliberdade, contrariando parecer desfavor√°vel da Junta de Tratamento da pris√£o de Teruel. Em 2013 ele passou √† penitenci√°ria de Zuera, e em janeiro de 2017 uma ju√≠za lhe concedeu a liberdade condicional, tamb√©m contrariando a opini√£o da junta, segundo fontes penitenci√°rias. A Junta de Tratamento √© composta pelo diretor da penitenci√°ria, pelo subdiretor de tratamento, pelo m√©dico-chefe, por um agente social, um educador e um chefe de servi√ßos.

Na senten√ßa pelo crime, a Audi√™ncia de Teruel imp√īs a Calvo tamb√©m indeniza√ß√Ķes no valor de 120.000 euros (512.000 reais, pelo c√Ęmbio atual) a cada um de seus tr√™s filhos, ent√£o menores de idade, embora tenha reconhecido como atenuante a sua confiss√£o √† pol√≠cia. Um j√ļri popular considerou por unanimidade que o condenado atuou sem que sua mulher pudesse se defender.

A delegada do Governo espanhol em Arag√£o, Carmen S√°nchez, pediu “unidade depois desta morte” e “aos homens democratas que defendem a liberdade das pessoas que se unam √†s mobiliza√ß√Ķes”. Na noite desta sexta-feira estava programada uma concentra√ß√£o na pra√ßa de Espanha, em Zaragoza.

O decano do Col√©gio de Advogados de Zaragoza, Antonio Mor√°n, recordou na manh√£ desta sexta que a v√≠tima do homic√≠dio coordenou o Servi√ßo de Orienta√ß√£o Penitenci√°ria entre 2010 e 2012. “Um servi√ßo que n√£o tem nenhum tipo de remunera√ß√£o e no qual colegas prestam assessoria aos detentos, pessoas que, embora estejam na pris√£o, continuam mantendo vivos os seus demais direitos. Isto d√° uma amostra de sua qualidade profissional e humana”, disse, emocionado, √† ag√™ncia Europa Press.

Em Puebla de H√≠jar, onde Jos√© Javier nasceu e onde matou sua mulher, cerca de 20 moradores se concentraram perto da Prefeitura no come√ßo da tarde. ‚ÄúEste homem tinha rompido totalmente a conex√£o com o povoado‚ÄĚ, alegou o prefeito Pedro Bello, que n√£o d√° conta de atender aos telefonemas da imprensa neste dia sombrio. ‚ÄúAquilo foi muito duro‚ÄĚ, rememorou. Bello contou que os poucos familiares do homicida que permaneceram no munic√≠pio ‚ÄĒ que na √©poca tinha 1.000 habitantes, e hoje ronda os 900 ‚ÄĒ romperam qualquer v√≠nculo com ele.

De vez em quando, conta o prefeito, alguns moradores relatam que o tinham visto por Zaragoza ou, quando come√ßou a receber indultos penitenci√°rios, em Teruel. ‚ÄúHavia tornado a trabalhar como pedreiro‚ÄĚ, informou Bello. A fam√≠lia da esposa assassinada e os tr√™s filhos que tiveram viveram nos √ļltimos anos no povo vizinho, H√≠jar, onde ela nasceu.

Uma colega de profiss√£o rememora que Rebeca come√ßou sua trajet√≥ria profissional ao lado de um prestigioso advogado de Zaragoza, Jos√© Antonio Ruiz Galve, j√° falecido, lidando com processos penais e de fam√≠lia. A advogada, muito conhecida na categoria, ‚Äúsempre tentava chegar a acordos‚ÄĚ nos contenciosos, recorda seu colega. Uma amiga, por sua vez, relata que ambas preparavam uma festa para uma terceira, nesta sexta.

Desde 2003, pelo menos 977 mulheres foram assassinadas por seus namorados, maridos ou ex-maridos na Espanha. Este ano, que mal começou, já soma três mortes com esta de Zaragoza, e outros três casos estão sendo investigados.