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Carros defasados e “custo Brasil”: por que a Ford deixou de produzir veículos no país

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Foto : Sergio Figueiredo/Divulgação

Caros leitores, digníssimas leitoras: mal começamos 2021 e já recebemos uma bordoada de notícias negativas para o setor. Vamos esmiuçar um pouco o que aconteceu nestes primeiros dez dias do ano. (fonte: Infomoney)

A notícia do momento é que a Ford optou por encerrar suas operações aqui no Brasil.

Mas não é só isso: a Ford foi a primeira fábrica de automóveis do país! Ela iniciou a sua produção em “mil novecentos e guaraná com rolha” (1919), com o clássico Ford T. Ou seja, ela é mais uma empresa secular que sucumbiu ao glorioso ambiente “favorável” de negócios no Brasil.

Mas qual é a nossa visão de tudo isso?

Primeiramente, o que adoramos dos americanos é que eles são bem pragmáticos. Quando decidem abalar o mercado, o fazem como ninguém. E a Ford fez isso pela segunda vez: a primeira foi quando decidiu interromper a sua produção de caminhões na fábrica de São Bernardo do Campo (SP).

Mais uma vez, o anúncio deles pegou todos de surpresa.

Qual era o cenário que estava sendo desenhado até 31 de dezembro de 2020? Era do pessoal da Ford (gerentes/diretores) vendendo otimismo para a sua rede de distribuidores com os futuros lançamentos do novo Ford Bronco (SUV tipo o Jeep Compass), a volta da Transit (veículo comercial).

A montadora orientou a rede a fazer investimentos (aporte de capital) para se adequar aos novos produtos, abrindo novas lojas e/ou reformá-las, entre outros pontos. Isso sem contar as conversas que tinham com outros elos da cadeia: sistemistas, agências e por aí vai…

A grande surpresa para nós foi exatamente isso: diretores, gerentes e qualquer outro nível da Ford “BRASIL” estavam fazendo grandes planos para os próximos anos. Em nenhum momento esboçaram indicar que talvez a marca pudesse sair do país.

O que parece para nós é que isso foi uma decisão de Detroit, que veio de cima para baixo e pegou todos (mas TODOS mesmo) de calça curta! Ou então, o board Brasil foi de uma canalhice sem fim! Acreditamos 99% na primeira opção, mas sempre tem aquele 1%…

O que ouvíamos dos analistas/investidores lá dos EUA é que a decisão anunciada nesta segunda-feira era quase que uma certeza. Mas, por causa do tamanho e história da marca no Brasil, não acreditávamos…

Então amiguinhos, no melhor estilo Christine Malèvre (não sabe quem é? Veja aqui), a Ford decidiu abreviar o sofrimento de todo mundo.

Mas o que a Ford alega?

Segundo Lyle Watters, presidente da Ford para a América do Sul e Grupo de Mercados Internacionais (ou “o coveiro do momento”):

“…Desde a crise econômica em 2013, a Ford América do Sul acumulou perdas significativas e nossa matriz tem auxiliado nossas necessidades de caixa, o que não é mais sustentável. A recente desvalorização das moedas na região aumentou os custos industriais além de níveis recuperáveis, e a pandemia global ampliou os desafios, gerando uma capacidade ociosa ainda maior, com redução nas vendas de veículos na América do Sul, especialmente no Brasil. Ao mesmo tempo, nosso negócio exige investimentos significativos em novas tecnologias para atender às demandas dos consumidores e itens regulatórios, que estão remodelando a indústria. Olhando o futuro, a indústria automotiva continua sendo ainda mais desafiadora. Essa decisão foi tomada somente após perseguirmos intensamente parcerias e a venda de ativos. Não houve opções viáveis…”

O que é uma verdade… mas não toda a verdade!

De 2013 até o terceiro trimestre de 2020, a operação da América do Sul da Ford acumulou um prejuízo de US$ 5,7 bilhões. Ou seja, foram oito anos consecutivos de prejuízos, sempre na casa das centenas de milhões de dólares.

“Contudo, porém, todavia”, se expandirmos a análise do resultado da marca de 2006 até 2020, ela registra uma LUCRATIVIDADE de US$ 112 milhões.

Tivemos um período de bonança entre 2006 e 2012, com um resultado positivo de US$ 5,8 bilhões, contra um prejuízo de US$ 5,7 bilhões no período de 2013 até 2020 (o resultado do último quartil de 2020 deve deixar a operação no zero-a-zero nesses 15 anos de operação).

Entendo perfeitamente que, se após 15 anos uma empresa não registrar lucratividade, a melhor opção é fechar a operação.

Mas o ponto é que o nosso amigo Lyle se esqueceu de comentar algumas coisas:

Ele não comentou a letargia na qual a Ford Brasil estava inserida. Vamos analisar melhor: o primeiro SUV brasileiro foi o glorioso Ford Ecosport lá em 2003, quando se inaugurou um novo mercado.

Mas, 17 anos depois, os veículos eram praticamente os mesmos, sem grandes alterações tecnológicas. E aí, a concorrência veio como uma manada ensandecida!

O segmento mais rentável para as montadoras é o de SUVs, mas a Ford (talvez ainda por causa de resquícios da Autolatina) decidiu que o seu Ecosport seria a nova “Kombi”. Eles só esqueceram de combinar com os russos!

Até a VW percebeu isso e, neste ano, estará com uma gama de quatro SUVs (T-Cross, Nivus, Taos e Tiguan). Já a Ford manteve em produção sua “Kombi”…

O que o Lyle também não citou foi a “burrada” com o câmbio Powershift. E olha que de burrada o estagiário aqui entende MUITÍSSIMO BEM, SIM SENHOR!

O câmbio era tão bom, mas tão bom, que ele só apresentava falhas como: superaquecimento, trepidação, ruídos anormais e desgaste precoce da embreagem dupla, entre “otras cositas más”.

E aí entra aquela máxima: errar uma vez é humano; agora, errar duas vezes é Ford.

O que a caboclada da Ford fez? Colocou aquele câmbio zoado nos Fiesta e Focus da vida, e vamos ver o que vai dar. E deu… ruim!

Tão ruim que, depois de assumirem a besteira que fizeram com o câmbio, a única solução que eles tinham para o problema era retirar os veículos de produção/circulação.

E aí sobrou para fazermos aqui no Brasil o Ka Hatch e o Ka Sedan. Aquele segmento de veículos de entrada em que marcas e consumidores se digladiam por qualquer percentual de desconto e/ou vantagem, o que gera baixa rentabilidade.

Para encerrar, a venda da linha Ka (Hatch e Sedan) no ano passado foi de pouco mais de 93 mil veículos. E vocês sabem quem foi que arrematou 20% dessa produção? Vou dar uma dica para vocês: é lá de “Belzonte”. E o pessoal lá de Minas – em geral – só compra veículos na bacia das almas.

Olhando agora mais friamente: já tivemos um prenúncio da saída da Ford.

Os modelos aqui fabricados eram as clássicas “jabuticabas”. No seu principal mercado (EUA) a Ford possui a excelência em SUV e na linha F de picapes. Hatch e Sedans como o Ka, Fiesta ou Focus não são comercializados por lá.

A gama de produtos da Ford aqui no Brasil estava defasada e não existia o menor sinal de que a marca investiria algumas centenas de milhões de dólares para desenvolver um novo veículo para o mercado tupiniquim.

Outra coisa que o presidente da Ford América do Sul não falou é da dificuldade de fazer negócios no Brasil.

O grande exemplo vem do estado de São Paulo. No apagar das luzes de 2020, num clássico suspense de Hitchcock (não num comercial de Doriana), e apesar de diversas promessas verbais de que não iria ocorrer, o estado decidiu majorar o ICMS para veículos (tanto novos como usados).

O ICMS de carros novos sairá de 12% para “apenas” 14,5%. Já na venda de carros usados, o aumento do ICMS é de 207%, coisa simples, dinheiro de pinga!

A Ford não vai parar de produzir ou montar veículos na América do Sul. Ela só optou por parar de trabalhar na bagunça que é o Brasil. A fábrica da Ford na Argentina (que já faz a Ranger) continua, assim como a operação dela no Uruguai. Da mesma forma que os outros produtos da marca serão importados do México e dos EUA.

Não desmerecendo, mas o pessoal prefere manter a produção na Argentina e no Uruguai (e importar do México) do que produzir no Brasil. Amiguinhos… é FOCA!

O problema do Brasil é esse: a insegurança jurídica para fazer negócios. Como o caboclo vai me aumentar o ICMS no apagar das luzes de 2020, no estado que representa 30% das vendas de novos e usados? O que vai acontecer é o consumidor fazer a compra do seu carro em outro estado (o que é uma prática extremamente normal no segmento de veículos de luxo).

Mas o ICMS é “um” dos “n” problemas do Brasil: a carga tributária do setor é algo que se assemelha a agiotagem, tem a questão da baixa produtividade do brasileiro, sindicatos…

Além disso, a indústria automotiva investiu algumas dezenas de bilhões de dólares para ter uma capacidade fabril de quase 6 milhões de unidades. Mas não conseguirmos comercializar nem 1/3 dessa capacidade.

Isso é Brasil. O último que sair, por favor, apague as luzes!