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Após repercussão do jogo Momo, escolas de Salvador emitem alerta a pais de estudantes

Polícia de Pernambuco investiga se morte de criança de 9 anos estaria relacionada ao desafio


Por Correio da Bahia

A figura estranha poderia passar facilmente por mais um meme. Poderia ter saído de um filme de Tim Burton, no melhor estilo A Noiva Cadáver. Ou talvez fosse só mais uma lenda da internet. O problema começou quando a lenda – que tem nome, Momo, e até número telefônico, que varia de acordo com o país – passou a amedrontar crianças reais e é atribuída como a suposta causa da morte de um menino de 9 anos em Recife (PE).

Na quarta-feira (29), sites da Colômbia noticiaram o suicídio de uma menina de 12 anos e de um menino de 16, citando o jogo Momo, mas ainda sem comprovação. Os casos aconteceram no município colombiano de Barbosa.

Para fazer frente à tal Momo, a corrente de uma boneca de aparência assustadora que divulga desafios virais pelo WhatsApp, escolas particulares de Salvador se adiantaram: até esta semana, pelo menos cinco instituições identificadas pelo CORREIO emitiram um alerta a pais e responsáveis. Nas mensagens, as escolas fazem um apelo para que as famílias “fiquem atentas” ao comportamento dos filhos.

Alguns já estavam vigilantes antes mesmo de receber os comunicados. Foi o caso da pedagoga Lília Fortuna, 45 anos, mãe da pequena Janine, 6. Na semana passada, o Colégio Montessoriano, onde a menina cursa o 1º ano do Ensino Fundamental, enviou uma mensagem aos pais sobre o assunto. Mas, uma semana antes, a tal brincadeira já estava no radar dela e de outras mães.

“Eles dizem que essa figura chama atenção das crianças para que peguem os dados do telefone e acessem o Whatsapp para ligar para eles. Só que tem algum dispositivo que rouba os dados e estimula as crianças a fazer várias coisas. Lembra aquele da Baleia Azul”, diz Lília, citando o jogo russo que viralizou no ano passado e que supostamente incitava adolescentes a cometer suicídio.

A pedagoga Lília Fortuna, 45 anos, mãe da pequena Janine, 6: conversa com a filha (Foto: Almiro Lopes/CORREIO)

Para se prevenir, Lília decidiu conversar com a filha. Janine tem o próprio smartphone, um aparelho sem chip de operadora. Ela também não tem Whatsapp, mas, do alto dos 6 anos, opera com destreza plataformas como a Netflix, o YouTube e a própria Smart TV.

“Ela sabe mexer em tudo e, mesmo sem ter acesso ao Whatsapp diretamente, a gente tem que ficar atenta a tudo. Mesmo sem Whatsapp, ela pode ver através do YouTube, porque o primeiro acesso é pelo YouTube. Mas conversei com ela, porque é sempre melhor alertar, porque a criança é curiosa e os meninos descobrem muita coisa”.

De fato, alguns alunos andavam comentando, na escola, sobre a tal Momo. Os que mais conheciam eram os adolescentes com idades entre 13 e 14 anos, mas até alunos com 7 anos afirmaram já ter ouvido falar do jogo. A maioria, porém, não sabia quem era, de acordo com a orientadora pedagógica do Colégio Montessoriano, Elisângela Santos. Assim, a escola decidiu se antecipar e notificar os pais.

“A gente sempre busca alertar as famílias, tendo em vista que crianças e adolescentes estão muito conectados. Tivemos uma reunião com professores e queremos fazer uma parceria entre a família e a escola. Normalmente, eles demonstram curiosidade, só que é nessa curiosidade que mora o perigo, daí a preocupação maior”.

Ilustração: Morgana Mirando/ CORREIO gráficos

Colégios em alerta
O alerta do Colégio Montessoriano foi um dos primeiros, mas outros colégios já fizeram o mesmo. Na terça-feira (28), foi o Instituto DOM de Educar (Rede FTC). Na quinta (30), pais do Colégio Salesiano receberam a mensagem. Nesta sexta-feira (31), o Colégio Vitória-Régia deve enviar um comunicado às famílias.

Entre os profissionais do Instituto DOM de Educar, o caso da Momo ficou conhecido há cerca de 15 dias, através das redes sociais. Os professores passaram a monitorar e tentar entender do que se tratava, de acordo com o psicólogo do instituto, Janilton Andrade.

“No início, as informações eram bem vagas e vimos que isso estava começando em São Paulo (SP). A gente começou a discutir, observando como isso estava aqui, qual era esse movimento. Mas também não queríamos alardear, porque a curiosidade leva as pessoas a ir atrás”, pondera o psicólogo.

Ele explica que o objetivo do próprio comunicado não foi fazer alarde – era justamente o contrário. Por isso mesmo, a mensagem foi enviada por email, diretamente aos pais, e não foi postada no site do colégio, ao qual os estudantes têm acesso.

“Mas o controle a essas mídias é da família, não é da escola, até porque o acesso ao celular não é permitido na escola. Nós emitimos um alerta de uma forma a esclarecer, não a criar pânico e separando o que é sensacionalismo, o que é exagero, para que não houvesse essa espetacularização da coisa”, explica ele, que afirma que não houve casos de comentários de estudantes sobre o assunto na escola.

Para Janilton, a corrente da Momo também é um tipo de cyberbullying. E, mais do que isso, é uma forma de se aproveitar de crianças e adolescentes que talvez não recebam atenção e casa. “Se você prestar atenção, essas pessoas dessas correntes são amigáveis e a criança fica vulnerável. Essas pessoas são muito sábias, infelizmente para o mal”.

No Colégio Vitória-Régia, segundo a psicopedagoga da instituição, Érika Dourado, o comunicado aos pais deve ser encaminhado até esta sexta-feira. A ideia é fazer uma ação preventiva, como é de costume na escola.

“É importante que o que os pais saibam não chegue apenas via Whatsapp e outras redes sociais. A gente está antenada a essa parceria escola-família, para se unir para combater, porque os meninos acabam tendo essa curiosidade em saber (o que é)”, afirma.

O comunicado será endereçado às famílias dos estudantes do Ensino Fundamental e do Ensino Médio, que são, majoritariamente, aqueles que têm mais acesso a redes sociais. No entanto, até o momento, não houve procura espontânea – ou seja, os próprios alunos buscando a escola para se informar sobre o assunto.

“É complicado porque, a cada etapa, existem novas coisas surgindo. A rede social, hoje em dia, está muito rápida nessas invenções e os jovens, de certa forma, acabam querendo experimentar. Faz parte do adolescente, mas o nosso trabalho é preventivo e não pode ser isolado. Os pais têm que ficar atentos ao comportamento em casa, ao contato com esses aplicativos, prestar atenção a isolamentos, porque essas coisas acontecem muito rápido”.

No email encaminhado aos pais, o Colégio Salesiano reforça um pedido para que os pais estejam “cada vez mais próximos de seus filhos e atentos a essa armadilha virtual, que ameaça as crianças e adolescentes, usando de sua inocência, aterrorizando as famílias e retirando a paz da sociedade”. No mesmo texto, assinado pela Rede Salesiana Brasil de Escolas, a instituição convoca os pais a “combater esse mal” e a disseminar jogos de convivência saudável. A assessoria da escola, entretanto, negou que estudantes estivessem comentando sobre o jogo na unidade.

Estelionato
Não se sabe, ao certo, como a Momo surgiu, nem qual é o seu alcance. A imagem da boneca foi copiada de uma conta no Instagram – é a foto de uma escultura de uma ‘mulher-pássaro’ exibida em uma exposição no museu Vanilla Gallery, no Japão, em 2016. A chamada ‘Guai Bird’ é uma obra da artista Keisuke Aisawa e retrata o fantasma de uma mulher que morreu na gravidez.

Para o delegado João Cavadas, coordenador do Grupo Especial de Repressão aos Crimes por Meios Eletrônicos (GME) da Polícia Civil, Momo trata-se de um golpe com o objetivo de extorquir dinheiro, diferentemente do Baleia Azul. Até o momento, nenhum caso foi registrado nem em Salvador, nem na Bahia. A ONG Safernet Brasil declarou, em um comunicado oficial, que, inicialmente, não é possível associar diretamente Momo ao caso do Baleia Azul.

“É um contato através de uma mensagem ou de uma ligação com o objetivo de captar seus dados, colher o máximo de informações. A roupagem nova que deram para o golpe foi o sobrenatural, ele está travestido nisso”, afirma o delegado.

Justamente porque não há nenhum tipo malware envolvido, o golpe acaba se dando de forma tradicional, já que a vítima precisa verbalizar as informações. É, portanto, um estelionato, de acordo com Cavadas.

“Todos esses golpes só migraram para a tecnologia, porque você atinge um maior número de pessoas, de forma mais rápida, mas tudo isso já existia”, diz ele, citando golpes recentes. Alguns dos “novos” tipos de estelionato online incluem o pagamento de uma quantia de R$ 300 para entrar na fila de transplante de rins de um hospital na África e o pagamento de R$ 200 para conseguir um cartão de crédito com limite de R$ 200.

A suspeita de que a Momo estivesse relacionada a desafios de asfixia surgiu após a morte de um menino de 9 anos em Recife, no último dia 16. Ele se enforcou no quintal de casa.

À polícia pernambucana, a mãe da criança disse que o menino tinha um celular e usava a internet e teria mostrado para ela a boneca Momo.

O delegado João Cavadas informou que entrou em contato com a polícia de Pernambuco, mas as investigações ainda não foram concluídas. “Isso (que teria a ver com a Momo) foi noticiado, mas a gente não sabe o quanto é verdade ou não. Estamos aguardando a investigação deles para ver se tem fundo de verdade”.

Também viral, Baleia Azul desafiava participantes a cometer suicídio
No ano passado, o jogo Baleia Azul foi que assustou pais e educadores. O jogo, supostamente criado na Rússia, seria composto por 50 desafios propostos a adolescentes participantes. Entre as provas, estavam etapas como assistir filmes de terror, automutilação e desenhar uma baleia com uma lâmina no braço.

O jogo era praticado em comunidades fechadas de redes sociais como Facebook e Whatsapp. No ano passado, a polícia fez uma operação em 20 municípios de nove estados para cumprir mandados de prisão e de busca e apreensão contra suspeitos de envolvimento com o Baleia Azul.

A operação foi coordenada pela Delegacia de Repressão aos Crimes de Informática da Polícia Civil do Rio de Janeiro e teria sido iniciada a partir da denúncia de pais de adolescentes que seriam vítimas dos aliciadores. Em julho, um homem de 23 anos chegou a ser preso – ele era suspeito de ser um dos “curadores” (coordenadores) desse crime nas redes sociais.

Induzir, instigar ou auxiliar suicídio é crime, punido no Brasil com reclusão (prisão) de dois a seis anos se a morte se consumar. Se a tentativa resultar em lesão corporal grave, a pena pode variar de um a três anos.