Início Salvador Esgoto é jogado no mar e afeta banho em Patamares

Esgoto é jogado no mar e afeta banho em Patamares

Problema em rede da Embasa ocorre na Terceira Ponte, vizinha a Jaguaribe

(Foto: Arisson Marinho/CORREIO)

Entre o vai e vem dos ventos da praia de Patamares, o aroma e a brisa do mar dão lugar a um odor desagradável. Além do fedor de esgoto, a coloração da água, mais escura que o normal, avisa que algo não vai bem por ali. Mas não é de hoje: o problema na região começou há cerca de duas semanas, segundo frequentadores.

A Empresa Baiana de Água e Saneamento (Embasa), ligada ao governo do estado, percebeu há uma semana que era preciso fazer uma manutenção da emergência na rede coletora de esgoto da região.

Ontem, no entanto, no dia da manutenção, o sistema parou de vez e a Embasa recomendou que os banhistas evitem o mar na área por pelo menos cinco dias. “Com a interrupção do funcionamento do interceptor, o esgoto coletado por essa tubulação é extravasado para o Rio Jaguaribe e, consequentemente, para a praia onde está situada sua foz, no caso, a praia da Terceira Ponte”, explica o órgão, em nota enviada ao CORREIO.

Em outras palavras, significa dizer que o esgoto sanitário dos bairros de Mussurunga, parte da Avenida Paralela, São Cristóvão, Jardim das Margaridas, Bairro da Paz e Alto do Coqueirinho foi parar no rio – e, de lá, direto no mar.

O odor tem afastado banhistas, moradores e até comerciantes do local. O educador físico Marcelo Carvalho tinha o hábito de frequentar a praia de Patamares, diariamente. Ele ia até o local para tomar banho de mar e fazer atividades físicas. Abreu, no entanto, se viu obrigado a mudar a rotina depois da fedentina. Agora, ele levanta mais cedo para ir a outra praia.

“Não tem quem suporte ficar aqui, não. O fedor sempre existiu, mas piorou e a água também está estranha”, disse. De fato, o esgoto que vem do rio passa por baixo da Terceira Ponte, no limite entre as praias de Patamares e Jaguaribe, e segue para Patamares.

Sem vendas
Marcelo não foi o único a ficar no prejuízo. O vendedor Maciano Pereira trabalha em uma das barracas de Patamares e conta que está perdendo de R$ 1,5 mil a R$ 2 mil por causa do fedor.

“Os clientes chegam com crianças, olham a cor e o fedor da água e vão embora. Ninguém quer ficar na barraca”, conta Pereira. Para ele, esse problema afeta até o turismo da região. “Os gringos ficam com medo da água. Hoje, eu perdi um grupo aqui. A Embasa deveria tomar alguma providência e resolver essa situação”, completa.

Em nota, a Embasa informou que a manutenção só deve terminar na próxima quarta-feira (10). Até lá, é importante evitar banho na região.

Foi o que fez a doméstica Lindinalva Sena, que foi ontem à praia de Patamares. Acompanhada da família, ela passou a tarde na areia, com receio de entrar no mar por causa da cor da água. “Preferi não tomar banho, porque com essa água, tenho medo de entrar no mar e pegar alguma doença”, conta.
Ao tomar banho em praias impróprias, o banhista corre risco de contrair doenças gastroentéricas, vômito, diarreia e, em casos mais graves, até a hepatite A.

Outras praias
A metros do Rio Jaguaribe está a praia que leva seu nome. Por lá, a coloração do mar ainda é a mesma, mas, o odor também afeta os banhistas. A doméstica Márcia Ramos disse que conseguia sentir o fedor de longe. “É um mau cheiro insuportável. Eu saí de lá, mas, às vezes, bate aqui”, conta, se referindo a Jaguaribe.

Para fugir do fedor em Patamares, teve gente que correu para a praia vizinha, o que também não é recomendado. De acordo com o diretor de Águas do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Inema), Eduardo Topázio, a presença do rio faz com que a praia já seja imprópria para banho.

“Essa praia de Jaguaribe, independente do problema da Embasa, está imprópria para banho por causa do Rio Jaguaribe, que está poluído”, explica. Ontem, o Inema enviou uma equipe até o local para acompanhar os trabalhos e dimensionar o volume de dejetos descartados.

A análise leva 48 horas para ficar pronta. Foram coletadas amostras em seis pontos diferentes dos que já são avaliados semanalmente para o boletim de balneabilidade, que avalia as condições das praias.
Segundo Eduardo Topázio, a olho nu não é possível observar uma alteração significativa na água do mar, já que fica distante do ponto de concentração de esgoto derramado, no rio. Ainda segundo ele, a água do mar não favorece a proliferação de bactérias.

O oceanógrafo Marcelo Caetano afirma que o lançamento de esgotos no local pode influenciar outras praias, como Piatã e Pituaçu, por conta de fatores como vento, ondas, correntes e maré. “O ideal para se saber o alcance da poluição é fazer uma modelagem numérica para o local. Entretanto, é muito difícil que a poluição restrinja-se a apenas uma praia”, diz.

Canalização de rio é motivo de protestos
O problema que afeta agora a região da Terceira Ponte, segundo a Embasa, não tem relação com as obras de canalização do Rio Jaguaribe, tocadas pela Companhia de Desenvolvimento Urbano da Bahia (Conder), ligada ao governo do estado.

Em relação à canalização, o problema não é tão novo. O projeto, que prevê a requalificação de canais com extensão total de 10.135 metros, a partir do revestimento de parte das margens, foi anunciado no ano passado. De acordo com professora e integrante do Movimento Jaguaribe Vivo, Lavínia BomSucesso, manifestações e “provocações” já foram feitas para que a proposta de canalização do Rio Jaguaribe seja analisada novamente.

“O rio está sofrendo com esgotos sanitários. O rio nunca esteve tão ruim, a água está preta e até passeando de carro dá pra sentir o cheiro desagradável. Ali deveria ser uma área de cuidado”, diz a professora. Ela teme que em breve a área esteja imprópria para banho. “Daqui a pouco, o rio vai tá impróprio para uso. E a gente salientou que isso poderia acontecer muito antes da obra começar. Não somos contra o projeto e sim contra essa concepção”, conta.

Integrante da ONG Gambá, a bióloga Maira Azevedo prevê diferentes impactos para a população e para o rio. “A gente se importa com qualidade. Quando existe um projeto como esse, há a perda de convivência e espaços naturais”, diz. Ela alerta para a perda da biodiversidade do rio. “Geralmente, a proliferação e nutrientes nos rios geram a perda de espécies, porque apenas uma ou duas ficam no local”, completa. *Por iBahia

Procurada, a Conder não se manifestou em relação ao caso.